terça-feira, 14 de julho de 2020

Crise

Dominou-me a angústia. Implodindo em mim um frio que vinha do fundo, tão fundo, que era quase o outro lado. Inclinei meus olhos pra cima enquanto minha sobrancelha franzia-se, levantando lentamente ao passo que se aproximavam. E, assim como elas, que se ajustavam ao meu desespero, meu corpo reagia ao medo de perder-te.
Inexplicavelmente arrasto o lábio inferior sob meus dentes, expiro tropego e cerro as mãos.
Ombros arqueados, cotovelos dobrados, unhas sujas da minha própria pele, cabelo embaraçado como minha vida. O reboliço externo apenas reflete o angustiante pesar de um coração acelerado. Tão tarde, tão tarde - dizia ele. Um grunido de eme regido pela garganta logo torna-se sinfonia de as. O meu corpo não existe, apenas reponde a resposta repetida, a faca na ferida, o terço da vida. E foi-se. Agonia. Desfazendo tudo que foi feito para regozijar falsa alegria.

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