Aqui estou eu. Cheio dos meus orgulhos e desconfianças. Novamente. Sem pseudônimos. Eu.
Mas não a mesma pessoa, talvez um pouco melhor, mas nada o suficiente pra afirmar minha sanidade. Não tenho diagnóstico, assim eu fujo dos problemas com mais facilidade. É o maior medo do homem. Vim retratar meu abandono psicológico. E, por causa dele, estou aqui novamente. Ao invés de nos braços ternos de alguém que possa me escutar e responder às minhas dúvidas.
Meu desabafo começa por volta de 1998, quando eu finalmente me dei conta de que era um nada. Uma criança de quatro pra cinco anos revoltada por receber um pedaço menor de doce de uma avó. Qualquer
um diria que isso é fruto de uma geração mimada e sou apenas mais um. Entretanto, minha revolta era apenas o começo de uma jornada ao meu possível passado que pode ser retrato de um futuro melhor ou pior. Ganhar um pedaço menor de doce é fácil de lidar, mas ouvir de sua família que você não serve pra nada é um pouco mais difícil. Assim eu cresci, remoendo dentro de mim o desprezo de ser apenas um caçula engraçadinho que não tem sentimentos. Ouvindo as desculpas que nunca me consolaram e, mesmo assim, estar sempre prestativo aos que me ignoraram. Ironia.
O menino, então, foi tomando sua personalidade descontraída para disfarçar toda sua mágoa. Sempre falando com todo mundo, eu me sentia seguro e satisfeito com a minha vida. Mas tudo mudou. Muito. Acontece que, ainda muito jovem, me distanciei de todas essas pessoas. E descobri que eles não passavam de uma diversão momentânea. Quando mudei de colégio não imaginava que todos eles me ignorariam como se eu fosse um traidor, um nada. Simplesmente esqueceram que eu existia. Não tenho amigos de infância, eles foram embora, ou melhor, eu sim que fui embora. Enxotado pela porta dos fundos. Calado. Traumatizado.
Comecei do zero.
Passei um ano de minha vida praticamente sozinho. De uma hora pra outra o moleque comunicativo e brincalhão se tornou o gordinho esquisito do fundo da sala. Nesse ano apenas uma amizade foi construída. Mas apenas uma amizade não é capaz de te ouvir por todo tempo e dar atenção necessária. Nessa época eu passava o dia inteiro em casa sozinho. Eu era quase uma criança. Então fazia tudo que me agradava, comia tudo que não me era oferecido na infância, a glicose em meu sangue supria a necessidade que eu tinha de conversar e sorrir. Uma época sombria. Pensei em tantas formas de interromper minha vida mas, como você vê, graças a Deus não o fiz. Um ano desse jeito. Eu continuei nesse colégio, mas meu único grande amigo se mudou para longe. Fiquei sem chão, sozinho novamente.
Comecei do zero novamente.
No ano seguinte em diante, eu havia começado o ensino médio. Fiz grandes amigos nesses anos. Me fizeram rir, me sentir seguro, confiante. Havia esquecido meus problemas e até voltei a emagrecer. Estava feliz, mas sabia que não seria para sempre. Apesar de toda a alegria eu já tinha, inato, o sentimento de descartabilidade de mim. Pois é, todos esses amigos, irmãos que amo tanto. Hoje em dia tão perto... mas tão longe. Uns mudaram tanto... outros não mudaram nada. Mas o fato eu sei que as coisas nunca voltarão a ser como eram naquela época. Cada um agora possui seu circulo de amizades onde contam uns com os outros e se fortalecem juntos com outras pessoas. Mas eu fiquei pra trás. Decidi fazer uma faculdade no interior do estado. Onde apenas no fim de semana posso rever minha família e amigos. Fui pra um lugar onde ninguém preza por mim. As pessoas não são como eram meus amigos anteriores. Constroem amizades descartáveis e ignoram meus pensamentos como ninguém.
Não sei se posso dizer se estou sozinho. Mas meu inconsciente grita em minha cabeça todos os dias e isso me faz ficar inseguro e com medo de novas experiências. Por que eu sei que no final vou terminar chorando pelo fim de mais um grande laço que luto diariamente pra manter. Não rejeito os que amo hoje, também não cobro provas de que não me abandonariam, não quero pena, quero apenas alguém que me ouça até o fim e me abrace de verdade.
<3
ResponderExcluiresse futuro veterinário podia ser jornalista!!! vai publicar muita coisa bem escrita na sua área!!! :)
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